CRISE ÉTICA CHEGA A DIADEMA

A crise política deflagrada em 2015 que culminou com o impeachment da presidente no ano seguinte, tramada pelo presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, pelo vice-presidente Michel Temer e pelo presidente do PSDB Aécio Neves, que também recebeu apoio de outras personalidades públicas, como o governador de São Paulo, Geraldo Alkmin, entre outros. Mostrou ser uma trama antidemocrática de aproveitadores cujo objetivo era chegar ao poder e fazer uso privado do público, revelados pelas últimas denúncias difundidas pelas mídias.

Passado um ano do desfecho da ação contra a democracia brasileira, do isolamento mundial decorrente da ilegitimidade que as nações estrangeiras demonstram a partir das ações de seus governantes, que se recusam a receber os governantes do país. A questão é descobrir o que sobrou para o país como legado da perversa trama dos políticos e da elite nacional.

Vejamos, a crise política iniciada em 2015, trouxe a reboque uma nova postura de acusações, que por ser embasadas em falsas premissas, buscou no discurso agressivo e preconceituoso criar uma indignação nacional. O resultado disso, a disseminação vertical da postura dos digníssimos representantes do povo, a agressividade se espalhou pelas redes sociais. Os comportamentos truculentos e antissociais se espalharampelas redes e a mídia passou a dar espaço para que posturas reacionárias minoritárias, que se contrastam com o ideal de civilidade de uma nação caracterizada pela diversidade.

Essa nova realidade social espantou os setores acadêmicos, que ainda procuram entender os acontecimentos na sociedade resultantes dessa nova postura, onde o politicamente correto perdeu valor educativo e o preconceito ganhou espaço para se manifestar livre e agressivamente. A sociedade expôs seus preconceitos de todas as ordens, sem que os preceitos morais anteriores e/ou aspirados servissem de obstáculos para as manifestações intimidadoras fossem capazes de conter seu avanço.

Isso tornou legitimo as falas preconceituosas que anteriormente eram feitas em ambientes reservados e na própria intimidade dos indivíduos que são preconceituosos. Na política e no espaço público assiste-se aos pronunciamentos que deveriam ser punidos socialmente, com acusações de natureza sectária e permissivas. Políticos bradam publicamente contra cidadãos, acusando-os de vagabundos e outras expressões difamantes, que mostram seus preconceitos.

A difusão dos comportamentos que deveriam ser moralmente repreendidos, chegou a Diadema, onde o próprio chefe do governo municipal se comportou de modo indecoroso com seu cargo de representante do povo. O que chocou os munícipes por sua postura truculenta onde a exceção está virando regra, os políticos que necessitam do voto irão usar o preconceito como plataforma eleitoral. É bom acreditarmos que não.

Enfim, observa-se que pior que a crise política e econômica, o legado dos últimos acontecimentos é uma crise ética, que durará bem mais que qualquer outra crise e cujos resultados sociais não podem ser previsto. Triste fim para um ação deflagrada por políticos e mídias interesseiras, casuísticas e antissociais.

Herbert Schützer: Geopolítico, consultor sócio-político, docente universitário de ciência política na FAD, de história na Estácio-SP e filosofia na FAATESP.