DIADEMA: QUEREMOS O “ESPAÇO DO MEDO”?

Nos últimos tempos assiste-se na cidade uma mudança nas características do espaço urbano realmente assustadora, para não dizer lastimável. Observa-se essa mudança em qualquer pequena circulação que se faz pela área “urbanizada” do município, que parece seguir uma espiral decrescente da qualidade de vida tão esperada por todos que circulam por aqui. Com certeza isso não era a aspiração de nenhum dos moradores, no entanto, os últimos governos municipais parecem não ter se importado com a decadência do espaço urbano municipal.

Há dois espaços distintos na cidade e eles possuem um tratamento não convergente, pelo contrário, parece que existe uma intenção dicotômica na elaboração do espaço municipal e não há percepção de tal distinção.

Sabe-se que um município é composto de espaço público e espaço privado, ou seja, o comum a todos e o de uso particular, decorrente da natureza do sistema que organiza a sociedade na atualidade. Pois bem, a qualidade de vida só pode ser alcançada quando os dois espaços apresentam qualidade para reprodução da existência humana. Será que é assim em Diadema?

Não sei se podemos afirmar isso. Vemos a cidade crescer verticalmente, com inúmeros condomínios, alguns classificados como clube inclusive, que fazem parte da paisagem e outros que estão sendo construídos e passarão a integrar. Há um forte interesse imobiliário na cidade para esse tipo de habitação. Não é para menos, não há espaço rural disponível no município e, portanto, ele só pode crescer verticalmente. Contudo, isso é muito bom para a cidade, pois mais pessoas irão residir na cidade, o que deve aumentar sua receita tributária. Consequentemente, tudo deve melhorar para todos os moradores, é claro.

Porém, pode não ser bem assim que aconteça, enquanto os espaços privados se qualificam, o espaço público, que nunca foi dos mais qualificados quanto a qualidade de vida, parece que se deteriora. Em qualquer passeio pela cidade se percebe um número cada vez maior de pessoas que fazem do público o privado, usando esse espaço para moradia, em condições que não são dignas a pessoa humana, é bom que se diga.

Isso possui vários motivos causais, que não convém se destacar aqui devido a complexidade de cada um deles. Mas é bom destacar que o atual momento não é favorável a reprodução da sobrevivência da classe trabalhadora, que devido ao forte desemprego causado por uma política econômica inspirada no Consenso de Washington, se vê privada das condições dignas de sobrevivência. Condições dignas essas que também são de difícil definição no cenário cultural brasileiro.

Dessa forma, as “ilhas da fantasia”, que na realidade são “bunkers” modernos, pois isola, afasta o indivíduo do espaço público, que deveria ser apropriado pela população como um todo. É de fato um espaço onde as regras são determinadas por categorias sociais que vivem a margem da formalidade cultural e impõe essas regras aos demais cidadãos, transformando o espaço público em espaço do medo.

É de fato uma situação preocupante, pois enquanto se qualificam os espaços privados, o espaço público se desqualifica, assusta e amedronta a todos que transitam pela cidade.

Espera-se com essa reflexão, suscitar algum debate no sentido da apropriação do espaço público pela população do município, de forma a exigir dos poderes públicos uma intervenção no sentido de garantir o direito do cidadão à cidade, que no momento está sendo privado. Caso contrário, de que adianta crescer, se não houver analogia com a melhoria, princípio fundamental do desenvolvimento, pois todos têm o direito de usufruir do espaço público e isso deve ser garantido pelos poderes competentes, espera-se. Ou então vamos viver nas idílicas moradias que imunes das externalidades, o que é um privilégio de poucos.

Herbert Schützer: Geopolítico, consultor sócio-político, gestor e docente universitário da graduação e pós-graduação de ciência política, história, geohistória e filosofia na FAATESP e na FAD.